Atuação crescente


Para o novo diretor executivo da anahP, Carlos Figueiredo, a associação tem conquistado esPaço junto às entidades regulatórias e nas discussões estratégicas sobre o setor.

Os programas da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) ganharam um reforço extra. Desde setembro de 2014, Carlos Figueiredo ocu- pa a posição de diretor executivo da instituição. Por oito anos, esteve na Agência Nacional de Saúde (ANS), onde coordenou os projetos de reforma do modelo de remuneração hospitalar e de qualificação dos prestadores de serviço de saúde. Agora, Figueiredo tem novos desafios: consolidar as iniciativas desenvolvidas pela Anahp; aumentar a representatividade da entidade no setor; congregar os filiados de todas as regiões do país e fomentar o debate de importantes questões, como o envelhecimento populacional e assistência aos pacientes crônicos. Na entrevista concedida à revista Melhores Práticas, o diretor executivo abor- da as discussões em pauta na Associação.

 

Melhores Práticas: Entre hospitais afiliados e membros, A Anahp representa 52 hospitais, em um universo muito maior de instituições de saúde brasileiras privadas. Como avalia sua atual representatividade junto a órgãos legais?
Carlos Figueiredo: Apesar de ser um número relativamente pequeno, se comparado ao universo de instituições de saúde no país, os hospitais da Anahp representam 7,5% dos leitos, 14% das despesas assistenciais e 36% do total de internações pagas por operadoras de planos de saúde. A Associação, por meio de seu programa estratégico, tem conquistado um espaço importante junto às entidades regulatórias e legislativas que afetam o setor, inclusive participado ativamente das discussões de temas fundamentais para a sustentabilidade do sistema.


MP: Em 2001, um ano após a formação da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a Anahp foi constituída para defender os inte- resses do setor. Qual a sinergia esperada entre as duas instituições?

CF: Há 13 anos, o sistema privado de saúde passava por um momento crítico. As operadoras não possuíam um padrão de atuação, e cada empresa definia seu próprio modelo de relacionamento com o mercado. Os beneficiários de planos de saúde eram os principais prejudicados com a falta de organização do sistema.A criação da Agência Reguladora representa um marco regulatório importante para o setor. A ANS surgiu para tornar o
mercado mais profissionalizado e orientado. Essa necessidade de profissionalização e maior qualidade também foi o principal motivo para a criação da Anahp. Um grupo de hospitais, que possuía realidades semelhantes, se reuniu e decidiu instituir uma associação para defender os interesses e necessidades do setor, e expandir as melhorias alcançadas para as instituições privadas no mercado brasileiro da Saúde.

MP: Em que consiste a participação da Anahp no Grupos de Trabalho (GT) da ANS?

CF: A Anahp tem conquistado cada vez mais seu espaço no setor e muitas das iniciativas da entidade já são referência, por exemplo, o Sistema Integrado de Indicadores da Associação. Assim como em diversos outros fóruns e esferas legais, a Anahp também participa ativamente dos Grupos de Trabalho da ANS sobre temas que impactam diretamente na sustentabi- lidade do sistema.

MP: Quais novos modelos de remuneração estão sendo testados?

CF: Conta Aberta Aprimorada, que consiste em um conjunto de diárias e taxas prede- finidas, considerando os principais itens incluídos; e os Procedimentos Gerenciados Cirúrgicos, que consistem em um elenco de procedimentos que devem ser cobrados de forma integral, considerando todos os insumos e recursos para sua execução.

MP: Em que fase está o projeto e quais os re- sultados já alcançados?

CF: Em maio de 2013, teve início o projeto piloto dos novos modelos de remuneração entre hospitais e operadoras de planos de saúde. O objetivo do projeto é validar os novos modelos nos relacionamentos mais frequentes entre operadoras e hospitais. Ainda não é possível medir os resultados.

MP: O Comitê de Padronização das Informações de Saúde Suplementar (Copiss) é outro grupo que tem a participação da Anahp. Conte um pouco sobre o andamento dos trabalhos.

CF: O Copiss está trabalhando na publica- ção da versão 03.01.00 do Padrão para Troca de Informação de Saúde Suplementar (Tiss), em substituição à versão 03.00.01. A alteração da Resolução Normativa no 305, de 09/10/2012, está em andamento para posterior publicação. O novo prazo para implantação da nova versão da Tiss é até 30 de maio de 2014, segundo comu- nicação da ANS.

MP: As diferenças de porte, complexidade de pacientes e localização dificultam a troca de informações entre os hospitais. Como a
entidade se propõe a facilitar esse benchmarking?

CF: O próprio modelo de governança da Anahp foi estabelecido a fim de aumentar e estimular a representatividade regional entre as instituições-membros. Desde 2008, a Anahp conta com um Conselho de Ad- ministração, com representantes de todas as regiões onde a entidade tem hospitais- membros. Além disso, as reuniões dos grupos de trabalho possuem cronograma anual para facilitar a participação dos re- presentantes das diversas regiões e, sempre que possível, a Anahp também promove reuniões, seminários e workshops fora de São Paulo. Para facilitar a comunicação com seus hospitais-membros, a Anahp também disponibiliza a tecnologia de vi- deoconferência e transmissão em tempo real de reuniões e eventos.

MP: Durante o ano de 2013, a Anahp percorreu o país, organizando debates sobre o envelhecimento populacional e os impactos no sistema de saúde. Das conclusões gerais, quais os principais desafios trazidos com o envelhecimento para os hospitais e fontes pagadoras?

CF: Os desafios são muitos, mas podemos dizer que um dos principais é a integração do cuidado por meio dos diversos níveis de necessidades dos pacientes (prevenção, tratamento, reabilitação etc.). Durante o Congresso da Anahp, várias iniciativas foram apresentadas, a partir da experiência internacional. Na França, por exemplo, todos os hospitais possuem serviços de geriatria. A população que envelhece requer a adaptação tanto dos prestadores como das operadoras. É um desafio conjunto.

MP: Como os hospitais pretendem lidar com o paciente crônico e de longa permanência?

CF: As instituições têm investido cada vez mais em programas de promoção à saúde para o gerenciamento das doenças crônicas, tratamento e reabilitação; equipes multidisciplinares, protocolos especializados para pacientes crônicos, entre outros.

MP: E quanto às fontes pagadoras?

CF: As doenças crônicas não são uma preocupação apenas dos prestadores, mas também das operadoras. Qualquer iniciativa que vise o melhor gerenciamento desses pacientes, otimizando recursos, deve ser vista como positivas pelas operadoras. Mas certamente ainda temos muito para desenvolver nesse sentido.

MP: Segundo dados divulgados no Observatório 2013, a receita média dos hospitais da Anahp cresceu em índices abaixo dos inflacionários, enquanto os custos cresceram acima da inflação. Em sua opinião, essa é uma relação que se manterá no curto prazo? Quais as estratégias possíveis para reverter esse quadro?

CF: A diferença entre o crescimento das receitas e dos custos é preocupante, pois de um lado há uma dificuldade de reajustar os preços dos serviços, de outro os custos crescem com reajustes salariais acima da inflação, incorporação de tecnologia etc. Essa realidade requer que os hospitais se preocupem cada vez mais em ampliar os ganhos de eficiência, otimizando processos.

MP: Em um cenário tão desafiador, como garantir a sustentabilidade dos hospitais de me- nor porte? Será o fim “dos pequenos”?

CF: No Brasil, os hospitais têm, em média, 70 leitos, enquanto em outros países como Espanha, Estados Unidos e França, as
insti tuições possuem respectivamente 190, 161 e 155 leitos em média. Precisamos repensar o papel dos hospitais menores para garantir sua sustentabilidade no mercado da Saúde.

MP: Outro dado preocupante é o aumento do impacto da folha de pagamento, que, segundo a Anahp, já representa cerca de 42,1% dos custos hospitalares. Que fatores contribuem para elevar o custo com recursos humanos?

CF: O crescimento geral dos salários acima da inflação e os gastos com treinamento, diante da baixa oferta e qualificação da mão de obra disponível no mercado, são os principais fatores que contribuem para o aumento do custo com recursos humanos. Outro aspecto importante está relacionado ao crescimento das estruturas exigidas por força da regulação do setor.

MP: Estão em tramitação diferentes projetos de lei que tratam da questão da mão de obra nos hospitais, como o que regulamenta a carga horária mínima para a enfermagem. Quais as iniciativas políticas merecem ser acompanhadas de perto pelos gestores?

CF: Todas as iniciativas que têm impacto direto na sustentabilidade do setor devem ser acompanhadas pelos gestores, como projetos das áreas operacional, tributária, trabalhista e propostas de novas regulações.

MP: Como a Anahp acompanha e se pronuncia em cada caso?

CF: A Anahp possui um Grupo de Trabalho Legal Regulatório, formado por representantes jurídicos das instituições-membros, que discute os principais casos e elabora pareceres sobre cada assunto. Além disso, por meio do Núcleo de Estudos e Análises (NEA), da Anahp, são elaborados estudos dos impactos operacionais e econômicos desses projetos sobre o setor. Com base nesses estudos e pareceres, a Anahp tem atuado junto aos poderes legislativos e regulatórios, contribuindo para o aprimoramento das propostas, sempre com base na ética e visão do aperfeiçoamento do sistema de saúde.

CARLOS FIGUEIREDO
> Diretor executivo da Anahp
> Administrador, pós-graduado em políticas públicas e especialista em regulação.
> Na ANS, atuou na Diretoria de Normas e Habilitação de Operadoras e na Diretoria de Desenvolvimento Setorial, coordenando a área de recuperação econômico-financeira das operadoras de planos de saúde, os Grupos de Trabalho sobre Remuneração de Hospitais, Honorários Médicos e o Programa de Qualificação dos Prestadores de Serviços de Saúde (Qualiss).