O desafio da atenção primária na saúde privada do Brasil

O desafio da atenção primária na saúde privada do Brasil


A equipe da Revista Melhores Práticas entrevistou com exclusividade Robert Janett, - médico da Cambridge Health Alliance (CHA) e professor assistente de medicina da Harvard Medical School

A Atenção Primária à Saúde deve ficar restrita somente ao setor público?
Sem dúvida, a implementação da Atenção Primária à Saúde (APS) pelo programa Estratégia de Saúde da Família aumenta a experiência do Brasil nessa área. As pessoas que têm acesso a saúde suplementar no Brasil raramente acessa a rede de atenção primária. Os headhunters da saúde suplementar têm uma falsa suposição de que a APS deve ser oferecida somente no sistema público. Então, uma pessoa doente do sistema de saúde suplementar tem que acionar um especialista para se consultar, e esse pode ser o começo de um ciclo vicioso de um atendimento complexo e sem coordenação. O resutado é que no sistema de saúde suplementar tem muito atendimento desnecessário nos consultórios de especialistas.

Por que as operadoras de saúde devem investir em atenção primária?

O Brasil não é um país de doentes agudos, é um país com problemas como hipertensão, diabetes, câncer, obesidade, com doenças cardiovasculares. Esses são os desafios presentes e para melhorar os resultados assistenciais tem que mudar o modo de atendimento do sistema. Algumas operadoras começam a enxergar os benefícios da mudança de um sistema que prioriza a APS. Há projetos pilotos muito bem executados e desenvolvidos, mas para mudar todo o sistema deve haver um consenso de todos os executivos. Se você pegar os relatórios econômicos das operadoras de saúde, vai ver que os custos têm aumentado cerca de 20% por ano. O custo por cliente é o dobro agora, comparado há cinco anos atrás. Quanto tempo mais devemos esperar para o sistema quebrar?

Qual a vantagem de um sistema que prioriza a APS?

O crescimento do orçamento da saúde não é sustentável, e para adaptar para um sistema sustentável tem que entender quais serviços são desnecessários e devem ser eliminados para diminuir os custos, e quais serviços são necessários para prevenir e evitar complicações para os pacientes. Por exemplo, se eu não controlo o diabetes dos meus clientes, lá na frente eles podem desenvolver nefropatias e os custos para atendê-los serão consideravelmente mais altos.

Se os médicos de uma unidade de atenção primária atender a maioria dos pacientes com queixas de dores de cabeça e dores na coluna, os especialistas terão a agenda livre para atender os pacientes que verdadeiramente precisam de consultas e exames especializados. Uma unidade que implanta uma gestão com foco na APS, pode reduzir em curto prazo 40% dos pedidos de exames de alto custo.

Robert Janett: médico e professor da Harvard Medical School, integrante da Cambridge Health Alliance, rede de serviços de saúde composta por clínicas e hospitais que adotam o sistema de Atenção Primária à Saúde em Boston, nos EUA