Inovação em Saúde

Com a experiência de quem dedicou mais de 20 anos à área da saúde, muitos deles desenvolvendo estratégias e soluções globais de assistência médica, Christopher Cornue afirma que é na Inovação que se esconde o segredo para a relevância e sustentabilidade de um negócio.

Para ele, criar uma cultura de inovação depende de avaliação contínua e pensamento disruptivo. Por isso, acredita que serão cada vez mais comuns nos hospitais e demais organizações de saúde um escritório específico para inovação. Ele aposta inclusive no surgimento de um novo posto profissional, o de Chief Innovation Officer ou Diretor de Estratégia e Inovação. "Não mudaremos fazendo a mesma coisa que fizemos no passado. Por essa razão, penso que é essencial vincular estratégia e inovação”, diz.

Acompanhe a seguir a entrevista exclusiva à Melhores Práticas.

Melhores Práticas - Qual o papel da Inovação no sistema de saúde?

Christopher Cornue - A inovação ajuda a desenvolver novas abordagens para resolver problemas ou melhorar processos. Nos cuidados de saúde isso também é válido. No entanto, acredito que a inovação (e a ação resultante, a interrupção; ou disruption em inglês) diferenciará os sistemas de saúde e garantirá a viabilidade futura a longo prazo. Os sistemas de saúde que criam uma cultura de inovação são mais propensos a se diferenciar de concorrentes e permanecem relevantes ao longo do tempo, tendo em mente que essa cultura deve estar alinhada com a estratégia da organização.

MP - Você escreveu diversos artigos sobre o “concept of disruption”. O que seria esse conceito e como aplicá-lo nas
organizações de saúde?

CC- Penso na inovação como o meio para a ruptura, a quebra de paradigma, que é o objetivo final. A forma como definimos disruption na capacidade de uma força, interna ou externa, é o que mudará fundamentalmente os modelos clínicos ou de negócios em vigor nas organizações de saúde.

Há muitas inovações globais que foram, no momento da disruption, formas diferentes de fornecer cuidados, mas que passaram a ser incorporadas à prática regular do dia a dia e se tornaram “padrão”.

Por exemplo, há na Pensilvânia, nos EUA, a Geisinger Health System. Eles criaram o primeiro "pacote de cuidados", que objetiva o tratamento em torno de uma doença. A empresa garante" os resultados e se responsabiliza por quaisquer condições adversas que surgirem. Outro caso bem conhecido é o da Kaiser Permanente, que criou uma nova abordagem de prestação de cuidados de saúde baseada na gestão das populações e no controle dos custos.

MP - O que faz então um Escritório de Inovação?

CC - Fornece a estrutura para que as atividades do Chief Innovation Officer ocorram, podendo ser um espaço físico no qual as equipes possam estar sempre juntas. Os objetivos do escritório são:

a) desafiar as atuais formas de fazer negócios;
b) avaliar novas formas internas e externas de alcançar os resultados desejados;
c) ser um local seguro para experimentar novas abordagens e, também, falhar sem consequências negativas;
d) impulsionar uma cultura de mudança e inovação.

Enquanto a maioria desses espaços tem uma localização física, há também oportunidades de criar espaços virtuais com o mesmo fim.

MP - O que faz um Chief Innovation Officer?

CC- Um Chief Innovation Officer desempenha três funções distintas:
1) Agente de mudança - é o catalisador para a transformação dentro de uma organização.
2) Curador - para ideias inovadoras, processos, produtos e abordagens que vêm de fontes internas e externas.
3) Cultura de mudança – ninguém melhor que um Chief Innovation Officer para desempenhar essa função (que é apoiada pela inovação e adaptação).

MP- Quais as tendências e novas abordagens em saúde?

CC- Não há dúvida de que a tecnologia e a integração de dados prometem revolucionar a forma como enxergamos o cuidado.

O genoma (sequenciamento genético ou "mapa" de um ser humano) e o microbioma (bactérias intestinais que influenciam na nossa saúde e muitas doenças) permitirão aos clínicos não só tratar melhor a sua condição atual, mas também traçar um panorama das doenças que um ser humano possa vir a ter no futuro. Se usados de forma correta, esses dados e tecnologias podem ajudar a eliminar certas (e de uma forma muito otimista, todas) as doenças. Esse será o início do movimento em direção à medicina personalizada ou de precisão.

Uma tecnologia recente chamada de gene editing, ou CRISPR, está sendo usada em alguns ambientes para alterar a composição genética dos organismos. Pense na sua possível aplicação em seres humanos. Todos esses dados e novas tecnologias irão provocar o disruption na indústria de maneiras que nem sequer podemos conceber agora.

MP- Você também fala em “nonhospital”? Poderia explicar?

CC- Existem muitas oportunidades para que os cuidados sejam mais diversos e não apenas com foco na assistência hospitalar. Na maioria dos casos, o atendimento hospitalar ou de cuidados intensivos é mais dispendioso e menos eficiente devido, principalmente, à necessidade de gerenciar múltiplos tipos de pacientes e pela quantidade de recursos necessários para fornecer esse cuidado.

Precisamos nos perguntar: "E se o cuidado fosse prestado em um ambiente seguro que seja mais eficiente, mais conveniente e mais econômico?" A resposta para isso é o surgimento de ambientes baseados na comunidade, varejo ou ambulatorial, como clínicas de varejo, centros de cirurgia ambulatorial e centros comunitários; e ambientes virtuais, como a telemedicina, a telessaúde, o atendimento domiciliar e a saúde móvel.

Eu acho que é seguro dizer que a tendência é o aumento da oferta desses serviços aos pacientes (ou consumidores), especialmente quando o consumidor for motivado a pagar ele mesmo a própria conta.

MP - Em alguns dos exemplos que cita, o nonhospital passa pelo autocuidado. A população está pronta para isso?

CC- Depende da motivação do paciente (ou do consumidor) e também da urgência que existe para fazer com que esse público se comporte de maneira diferente, como buscar o cuidado em um ambiente não tradicional, por exemplo.

Isso variará de um país para outro, mas as pessoas são mais encorajadas quando motivadas a cuidar da própria saúde e quando há oportunidades de baixo custo para gerir o seu cuidado.

Há também, no futuro, um horizonte de precisão. Como mencionei anteriormente, há muitos exemplos em que está sendo testada a medicina personalizada, como alguns estudos de câncer e projetos colaborativos, nos quais o consumidor tem à disposição um serviço de mapeamento genético.

Esse tipo de serviço ainda é caro, mas acredito que os custos para o sequenciamento, com o impacto da computação cognitiva, diminuirão com o tempo, e pode haver um caminho para medicina personalizada que é sustentável.

MP- Em muitos países, como o Brasil por exemplo, ainda é muito forte o modelo de negócio com foco em pacientes agudos. Qual o futuro desse caminho?

CC- Acredito que só pacientes gravíssimos precisarão desse modelo no futuro. No entanto, isso depende da estrutura de financiamento que existe dentro do país específico, que muitas vezes é a força motriz para abordagens inovadoras.

Em alguns municípios dos EUA, você vê uma mudança intencional no financiamento do atendimento agudo para outros locais de cuidados fora do hospital. Além disso, há sistemas de saúde penalizados por não otimizar o cuidado, contrariando a orientação de determinado governo, como por exemplo readmissões em um hospital de cuidados agudos após a alta. Muitos países começaram a adotar programas-piloto ou abordagens inovadoras alternativas para deslocar os cuidados agudos para fora do hospital, o que poderia resultar em maior satisfação do paciente/consumidor (devido à facilidade do atendimento, maior eficiência e melhor acesso), custos mais baixos e maior qualidade.

Isso pode causar disruption e mudar a maneira como a saúde tem sido tradicionalmente praticada, além de inaugurar um novo modelo disruptivo de cuidados que irá estabilizar o setor de saúde (e o modelo de negócios) nas próximas décadas.