Paciente seguro

A experiência Canadense nos desafios para
conquistar e preservar A segurança do paciente

Presidente do Canadian Patient Sa- fety Institute (CPSI), o professor doutor Hugh Macleod aposta em conhecimento, evidência e análise como norteador da segurança do paciente. E, sobretudo, no engajamento para obter os resultados esperados. “É muito fácil entendermos e até concordarmos com a bandeira de nosso programa Safer healthcare now! – Instituição de saúde mais segura agora!, numa tradução livre. Porém, o quanto estamos engajados para obter cuidados mais seguros?”, questiona.
Em visita ao Brasil para o encontro Melhorias na Segurança do Paciente, construção coletiva, o professor fala sobre as estratégias e programas utilizados com sucesso no seu país.

Melhores Práticas: Como atingir a missão ‘Ins- tituição de saúde mais segura agora!’?

Hugh Macleod: É importante saber, por meio de informações claras, qual é a verdadeira e honesta situação da instituição, o seu papel na comunidade, o que poderá ser feito, estabelecer metas e fazer um voto de compromisso para que elas sejam alcançadas dentro de uma realidade possível, mas sem medo de enfrentar fronteiras pré- estabelecidas. Fazendo isso, você estará sendo transparente com a instituição, com os que prestam cuidados médicos e, acima de tudo, com o cliente/paciente. Trará, assim, segurança, confiabilidade e clareza. E você não deve parar até que todas as metas e os alvos estejam andando em conjunto e alinhados na direção correta.

MP: Do ponto de vista prático, por onde começar?

HM: Uma das maneiras mais seguras está nas intervenções e em uma nova cultura dentro dos estabelecimentos que preveem esses cuidados. Entre os principais focos para as intervenções, estão: higiene das mãos, infecções de sítio cirúrgico, infarto agudo do miocárdio, infecções de linha central, pneumonia associada a ventilação mecânica, times de resposta rápida, reconciliação medicamentosa, tromboembolismo venoso, checklist cirúrgico, quedas e ferimentos causados por quedas.
Para cada uma das intervenções, é necessário que haja uma mudança profunda na cultura hospitalar. Apesar de apresentarmos estatísticas excelentes quando colocamos o Canadá em pauta, foi um trabalho de muitos anos, ajustado e melhorado por meio da adaptação de todas as intervenções. É importante mencionar que, para a segurança do paciente ser efetiva, é importante que haja uma governança para a qualidade e a segurança do paciente. Essa governança é interligada, e todas as partes envolvidas estão centradas em um mesmo eixo, e complementam umas às outras.

MP: E como se dá essa governança?

HM: Começa pela avaliação e a melhoria da qualidade e cultura da segurança do paciente. O próximo passo, então, é ter um plano, identificando as áreas de ação e os colaboradores envolvidos, quais serão as habilidades requeridas e os papéis a serem assumidos. Os resultados das ações precisam ser medidos e difundidos dentro da instituição, principalmente entre aqueles que têm papel de liderança. Finalmente, são determinadas as relações entre conselho, liderança sênior e equipe médica.

MP: O que o sr. destacaria sobre liderança nesse contexto?

HM: Algo que nunca devemos esquecer e que é de vital importância refere-se à adesão de todo o corpo médico hospitalar, informação clara por parte da instituição,entendimento e crença no programa. Quan- do conseguimos que esses pontos sejam incutidos dentro da instituição, podemos dizer que a integridade foi estabilizada. Mas para que essa integridade torne-se o que chamamos de lugar-comum, é necessário que tenhamos clareza de propósito e esforços alinhados entre cada área. É importante que tenhamos responsabilidade pelo desempenho geral da instituição. Sem integridade, clareza de propósito e esforços alinhados à frente da responsabilidade, é como empurrar água morro abaixo. Ou seja, não há esforço e nem propósito.

MP: Como realizar a comunicação?

HM: É importante que o plano de comunicação interna não seja muito prescritivo. Há uma grande quantidade de boa comunicação orgânica que acontece todos os dias. Um plano de comunicação interna é desenvolvido para determinar do que precisamos, a fim de apoiar os objetivos de negócio. Não podemos esquecer que a comunicação é um processo social, e isso pode ser mais difícil de alcançar em um ambiente virtual. Portanto, é importante encontrar oportunidades e métodos para que os colaboradores possam construir relacionamentos. Para isso, é importante a existência de uma estrutura de trabalho em equipe e comunicação. Também devemos colocar aqui a importância dos Alertas Globais da Segurança do Paciente. Esses são comunicados de uso livre, com mais de 1100 alertas e 5800 recomendações, apoiados pela

MP: Pode descrever em que consiste o programa de educacão continuada do CPSI?

HM: Desenvolvido em parceria com a Fundação de Pesquisa Canadense de Serviços de Saúde, conta com sessões educacionais e inclui o kit de ferramentas de Gover- nança Eficaz para a Qualidade e Segurança do Paciente – um recurso importante para organizações de saúde. Com o kit de ferramentas em mãos, os governan- tes de saúde têm um quadro estruturado para orientar a excelência em práticas de governança. Existem várias maneiras de melhorar ainda mais estas inter-relações. Uma delas é o Curso Oficial de SegurançaOrganização Mundial de Saúde (OMS) e 24 organizações contribuintes pelo mundo afora. Canadense, cujos parceiros são a Canadian HealthCare Association, a Accreditation Canadá International e a Nova Scotia Healthcare Quality and Safety Committee. O do ano passado, por exemplo, foi um enorme sucesso – com a participação de 65 profissionais de saúde, incluindo seis de Hong Kong.

MP: O que esperar do curso?

HM: Neste workshop interativo, os participantes aumentam suas habilidades e conhecimentos, e desenvolvem estratégias e soluções práticas para os desafios de segurança do paciente em suas
organizações. Essa é também uma oportunidade de inovação e troca para os profissionais da rede de qualidade e segurança do
paciente. O curso de quatro dias é fornecido em parceria com a Associação Americana de Cuidados de Saúde (CHA). Esse curso inclui um mergulho profundo na cultura da segurança do paciente; o pensamento sistêmico, pacientes como parceiros; ges- tores de incidentes; os fatores humanos; resiliência e distorções cognitivas de con- fiabilidade; erros e segurança do paciente; médicos como parceiros; liderança; o di- fundir e sustentabilidade. Uma ênfase é
colocada na compreensão de alavancas para melhorar o desenvolvimento e a realização de um plano de segurança do paciente para uma organização de saúde ou sistema. Este programa agora está sendo adaptado para uma audiência internacional,
entrega on-line com foco baseado em projeto. São cerca de 400 alunos com um nível de satisfação acima dos 90%; conhecimento transferido no local com melhoria de 12 a 20% em tópicos específicos.


MP: Há treinamentos voltados para outros perfis profissionais?

HM: Sim. O Programa de Educação na Segurança do Paciente (Patient Safety Education Program) é voltado para fornecedores de primeira linha, gerentes de nível médio e especialistas MQ. Os participantes são incentivados a participar em equipe, sendo o foco na educação de pares na ciência e nos princípios da segurança do paciente, ofere- cido em um currículo flexível. São muito abordados temas relacionados à confiabilidade, resiliência e cultura de segurança. Com a disseminação da cultura da segurança da saúde do paciente, muitos outros treinamentos foram criados, acrescentando ao programa interesses de educadores,
profissionais da área e profissionais direta e indiretamente ligados a este. Obviamente, podemos dizer que as boas práticas estão trazendo grandes benefícios àqueles que precisam de cuidados e também para aqueles que trabalham na área.

MP: O que é o Programa de Educação para a Segurança do Paciente – Canadá?

HM: O objetivo do Programa de Educação para a Segurança do Paciente – Canadá (PSEP– Canadá) é envolver a linha de frente e elevar a qualidade e segurança do paciente das organizacões. O PSEP – Canadá tem um quadro de 26 facilitadores-mestre que certificam instrutores, dando-lhes a formação e recursos para perguntar, ouvir e falar sobre a segurança do paciente. Já o Aspire é um recurso criativo para um programa de segurança do paciente para médicos residentes de pós-graduação. Lançado em 2013, o programa está sendo desenvolvido por um comitê gestor composto de 13 organizações nacionais, juntamente com o Royal College of Physicians e Cirurgiões do Canadá atuando como secretaria. É voltado para educadores médicos que têm mostrado interesse no ensino de segurança do paciente e da educação MQ de colegas e médicos residentes em treinamento especializado. Pretende oferecer um programa nacional de aperfeiçoamento do corpo docente na segurança do paciente para os médicos.

MP: Quais os resultados alcançados pelos pro- gramas de cursos no Canadá?

HM: As organizações de saúde estão conseguindo um atendimento ao paciente mais seguro, incorporando o quadro de Competências de Segurança da CPSI em programas educacionais e atividades de desenvolvimento profissional. Essas competências básicas permitem que os provedores de saúde canadenses da linha de frente possam oferecer um atendimento seguro. Os educadores e os profissionais também estão usando a ferramenta de mapeamento CPSI e processos para integrar o conteúdo da segurança do paciente nos currículos. A ferramenta é o processo que lhes permite avaliar os alunos e identificar as lacunas em conteúdo de segurança, a fim de resolver as insuficiências e áreas de destaque para o desenvolvimento do corpo docente.


MANDAMENTOS DA SEGURANÇA
A segurança do paciente é um aspecto crítico nos serviços de saúde de alta qualidade. De acordo com o professor doutor Hugh Macleod, as Competências de Segurança precisam ser constantemente praticadas:
1o Contribuirparaaculturadasegurançadopaciente.
2o Trabalho em equipe a favor da segurança do paciente.
3o Comunicaçãodeformaeficazparaasegurançadopaciente. 4o Gerenciar os riscos de segurança.
5o Otimizarosfatoreshumanoseambientais.
6o Reconhecer,responderedivulgareventosadversos

GERENCIAMENTO DE INCIDENTES
Antes do Incidente – Assegurar o apoio da liderança, cultivar uma cultura justa e segura, desenvolver um plano que inclua recursos.

Resposta Imediata – Cuidar e apoiar doentes, famílias, fornecedores e outros. Relatar incidentes, itens de segurança, iniciar o processo de divulgação e reduzir os riscos de recursos iminentes.

Preparar para Análises – Selecionar um método de análise. Identificar a equipe. Coordenar reuniões. Planejar para entrevistas de condutas.

Processo de Análise – Investigar o acontecido. Entender como e por que o incidente aconteceu. Desenvolver e ge- renciar as ações recomendadas.

Follow Through (Dar Seguimento) – Implementar as ações recomendadas. Medir e avaliar a efetividade das ações.

Fechar o Ciclo – Compartilhar o aprendizado por meio
do diagrama incluído no Incident Analysis Framework canadense, em torno do qual o conteúdo da estrutura está organizado.


HUGH MACLEOD
> Presidente do Canadian Patient Safety Institute (CPSI)
> O professor doutor Hugh Macleod esteve no Brasil para o encontro Melhorias na Segurança do Paciente, construção coletiva