A inovação bate à porta

Difusor da experiência alemã Do medical Valley, o professor e engenheiro biomédico, Tobias Zobel, fala sobre como o conceito de cluster pode incrementar o processo De inovação na saúde.

Diretor do Instituto Central de Engenharia Biomédica da Alemanha, o ZiMT – um centro de estudos per- tencente à Friedrich-Alexander Universität Erlangen-Nürnberg (FAU) –, Tobias Zobel passa grande parte do tempo divulgando pelo mundo o case de sucesso do Medical Valley – polo tecnológico de inovação em biomedicina. O engenheiro está particularmente focado em estabelecer parcerias no Brasil. Nesta entrevista, ele conta como os investimentos em pesquisa e desenvolvimento precisam estar alinhados entre centros de ensino, indústria e mercado para que os projetos brasileiros sigam adiante. Tobias apresenta a experiência alemã como exemplo desta parceria construtiva.

Melhores Práticas: O Medical Valley Center está localizado em Erlangen, região de Nuremberg, e é reconhecido como o “Vale do Silício” da saúde europeia. Como esse complexo de engenharia, pesquisa e serviço em tecnologia médica pode ser entendido?

Tobias Zobel: TO Medical Valley teve início com a decisão política de se aproveitar a infraestrutura já existente e a localização estratégica da cidade para torná-la a capital da tecnologia médica da Alemanha. Já havia, na região, várias empresas de pequeno e grande porte instaladas e uma sólida trajetória da Universidade FAU. A fundação oficial do centro tecnológico teve o objetivo de colocar em prática o conceito de cluster (concentrações geográficas de empresas e instituições que, ao colaboram entre si , tornam-se mais eficientes). Buscou-se firmar compromissos, com apoio da própria FAU, de instituições de pesquisa privadas, em- presas locais e, o mais importante, do sistema político, o que inclui as administrações nacional e regionais. Mesmo empresas concorrentes se dispuseram a contribuir uma com o trabalho da outra. Hoje o Medical Valley reune especialistas capacitados em tecnologia e negócios para promover a inovação nos cuidados de saúde, viabilizando a transformação de idéias brilhantes em produtos de sucesso no mercado. Hoje, já somos responsáveis por 43% dos pedidos de patentes na área de diagnóstico e terapia em toda a Alemanha.

MP: Qual o papel da Universidade de Erlangen neste trabalho de cooperação?

TZ: O sucesso e a visibilidade se dão pela combinação das faculdades de medicina, ciência e engenharia. Efetivamente, é a experiência de trabalhar em conjunto que proporciona o desenvolvimento de novas tecnologias nesse campo altamente
interdisciplinar. Nenhuma dessas disciplinas traria o mesmo resultado se atuasse individualmente. Engenheiros e médicos têm de interagir e entender uns aos outros. Uma das tarefas do meu instituto é permitir aos engenheiros uma compreensão básica do corpo humano. Quem sai da universidade com um mestrado em engenharia biomédica está perfeitamente capacitado para atender às necessidades da maioria das empresas de tecnologia nesse setor. Focamos em certas especialidades, como imagem, dispositivos médicos, oftalmologia ou eletrônica médica. É valioso para o Medical Valley ter especialistas da universidade que vão para as empresas. É claro que os alunos também têm a oportunidade de se dedicar ao doutorado, o que pode ser feito exclusivamente na universidade ou em colaboração com as empresas. Dessa forma, garantimos sempre produtos inovadores. Cito um fato interessante: 80% dos equipamentos médicos comercializados no mercado alemão foram criados há menos de três anos. Essa é uma ilustração perfeita da necessidade contínua de inovação.

MP: No total, o Medical Valley mantém parcerias com mais de 250 grandes corporações da indústria mundial. Como essas parcerias foram sendo consolidadas?

TZ: Divulgamos o expertise da região no mundo inteiro, mas é a reputação que já temos que desperta a atenção para novas parcerias. De um lado, a universidade tem interesse na pesquisa e na publicação de artigos científicos. Do outro, a indústria busca produtos inovadores. Em vez de dividir esses interesses, nós promovemos a colaboração e desenvolvemos produtos a custos realmente baixos, e gera-se material a ser publicado pelos doutorandos. Todo mundo é beneficiado. No caso de parcerias com pequenas empresas, incapazes de investir nos grandes projetos, o sistema político, depois de aprovar o conceito de uma nova tecnologia, disponibiliza financiamentos para interessados em apostar nas start-ups.

MP: Como funciona essa parceria na prática?

TZ: A gestão do cluster e todas as atividades de rede são pagos por taxas de adesão que as empresas parceiras têm de quitar em uma base anual. Mas também pelos financiamentos governamentais, já que essa é uma forma de promover a força econômica da região. A ajuda financeira, relativamente menor, do governo leva a grandes projetos industriais que asseguram um retorno sobre o investimento para to- dos os parceiros. Mesmo quando pequeno, esse apoio pode ser crucial para viabilizar protótipos, por exemplo.

MP: De que forma a inovação produzida chega aos hospitais alemães?

TZ: A cadeira de reconhecimento de padrões, um dos nossos departamentos universitários, por exemplo, tem uma longa tradição de desenvolvimento de softwares e algoritmos que são aplicados em novos produtos clínicos de nossos parceiros. Oferecemos o serviço de integrar novas tecnologias em um de nossos 43 hospitais da região, mas na maior parte das vezes nossas empresas parceiras já têm boas conexões com os hospitais para estudos clínicos e de implementação.

MP: De que maneira a observação do envelhecimento da população mundial, a necessidade de redução de custos e aumento de eficiência pressionam a busca de novas tecnologias?

TZ: A mudança demográfica tem sido um dos maiores motivadores no campo da tecnologia médica. Doenças como ataques cardíacos ou câncer devem dobrar até o ano de 2050. Os bebês nascidos hoje terão uma expectativa de vida de 90 anos, o que significa que a demanda de problemas de quadril ou joelho aumentará. Este é um desafio e ao mesmo tempo uma oportunidade. Todo o processo de atender o paciente, desde a prevenção, diagnóstico, terapia e reabilitação, será efetuado com objetivo de proporcionar mais qualidade de vida e melhor tratamento na medida em que se reduzem os custos. No Medical Valley temos contribuído com a elabo- ração de dispositivos que reduziram os custos de nossas companhias de seguros em mais de um bilhão de euros. Temos sistemas de simulação profissional capazes de prever o efeito de novas tecnologias médicas sobre os pacientes, companhias de seguros, custos gerais e, mais importante, no sucesso do tratamento.

MP: Como foi a decisão de expandir o projeto além das fronteiras europeias?

TZ: O primeiro pedido internacional para implementar nossa estratégia fora da Alemanha veio do governo chinês. O país analisava, internacionalmente, clusters bem-sucedidos em vários campos da tecnologia. Depois, começamos a trabalhar com grupos nos EUA, Japão, Israel e Brasil. Meu foco é o Brasil. Estou animado com o potencial do país e do seu poder de mercado. Identificamos algumas áreas cuja infraestrutura é perfeita para a aplicação de nosso conceito.
O retorno tem sido, até agora, 100% positivo. Mas nós temos também que rejeitar alguns pedidos de certas regiões porque a infraestrutura não é promissora. Claro que cada região é diferente. Especialmente no Brasil, temos megacidades, com milhões de pessoas, e portanto, áreas rurais com quase nenhuma indústria ou sem um sistema de saúde satisfatório. Esses fatores devem ser considerados durante o desenvolvimento de uma estratégia.

MP: Qual o objetivo principal da aproximação com o Brasil?

TZ: A análise de todos os países e de seus programas de pesquisa tem apontado que algumas das maiores oportunidades estão no Brasil. O governo brasileiro já investe em pesquisa e educação, como no programa Ciências sem Fronteiras, mas ainda há oportunidade de melhorias. Tenho alunos desse programa e gostaria de oferecer pos- sibilidades mais focadas para estudantes brasileiros na Alemanha para que voltassem ao Brasil como especialistas nos seus campos de pesquisa. Participei de três congressos científicos diferentes no país entre 2013 e 2014. O potencial dos estudantes brasileiros é grande, mas tem que ser orientado em uma direção mais rentável. Gostaria que eles fossem o alicerce futuro para uma grande colaboração internacional entre os nossos países. Por um lado, atraímos a indústria brasileira para desenvolver novos produtos em colaboração com as universidades locais e, por outro lado, traria-se mais empresas alemãs ao Brasil para novos investimentos em pesquisa e produção inovadora.

MP: Como tem sido a aproximação com as uni- versidades brasileiras? Já há parcerias formadas?

TZ: Nos últimos três anos, estabelecemos, sistematicamente, uma rede científica ex- tensa no Brasil, que inclui várias universidades, como UFRJ, USP, Unesp, UFSC, UFPR, Unisinos entre outras, e também alguns institutos privados de pesquisa. Na maioria, contamos com intercâmbio de estudantes, professores e até mesmo projetos de pesquisa.

MP: Qual sua opinião sobre pesquisa em inovação neste setor no Brasil?

TZ: O que eu vejo me traz motivação. É bom perceber como o Brasil está melhorando seu sistema público, mas, ao mesmo tempo, observo que partes do sistema político e acadêmico têm de mudar para se mover em uma direção estável. Mostrar algumas estatísticas para o governo brasileiro de como a política, a indústria e as universi- dades podem trabalhar em conjunto para aumentar a força econômica e educacional do país é uma das maiores contribuições que eu posso dar. A burocracia na Alemanha é tão horrível como no Brasil, mas temos desenvolvido algumas estratégias eficientes de apoio governamental. Um fator de sucesso nos países-chave são as pequenas e médias empresas.

MP: É possível criar uma experiência similar à alemã no Brasil?

TZ: É difícil essa comparação. Enquanto a Alemanha é um país pequeno e conta com histórico de boa infraestrutura, o Brasil sofre com muitas áreas rurais de baixo desenvolvimento. Se você tentar subdividir o país em regiões do tamanho da Alemanha, garanto que há lugares com chances de estabelecer as mesmas estruturas existentes. Começando com duas ou três regiões, é possível desenvolver novos microssistemas com uma economia forte.

MP: De que forma o Brasil, que recebe menos investimentos em pesquisa do que a Alemanha, poderia buscar um modelo próprio e produzir tecnologia nacional?

TZ: Há grande oportunidade para estabelecer novas colaborações com empresas brasileiras. No momento, temos muitas soluções de alta tecnologia que estão prontas para o mercado, mas temos que realizar ajustes às necessidades locais. Dependemos das parcerias para encontrar as soluções certas. Isso cria grandes oportunidades para ambos os países, a curto e médio prazo. Em longo prazo, o objetivo é o Brasil ser capaz de atender às suas próprias necessidades mercadológicas. E eu espero que o Governo apoie um mer- cado mais aberto para o país, permitindo a entrada de novas tecnologias.

TOBIAS ZOBEL
> Diretor do Instituto Central de Engenharia Biomédica da Alemanha (ZiMT);
> Professor na Alexander Universität Erlangen-Nürnberg (FAU);
> Fundador das conferências BSA de engenharia biomédica.