No centro, o paciente

COMO A PARTICIPAÇÃO DO PACIENTE PODE MUDAR O SISTEMA DE SAÚDE E O PAPEL DA EQUIPE ASSISTENCIAL EM PROMOVER ESSE ENGAJAMENTO.

Patricia Rutherford é vice-presidente do Institute for Healthcare Improvement (IHI). Especialista em Person and Family Centered Care, ela considera que empatia e escuta ativa são os primeiros passos para mudar o sistema de saúde. Nessa entrevista, que antecedeu sua visita ao Brasil para o Seminário Internacional de Segurança do Paciente e Acreditação, Patricia desmistifica conceitos e responsabiliza a assistência pelo engajamento dos pacientes. Sobre o papel do IH,I diz: “A nossa visão é inaugurar uma nova era de parcerias entre
médicos e indivíduos, onde os valores, necessidades e preferências são honrados”.

O que são “Cuidados Centrados
no Paciente”?

Este é um termo que tem sido usado para se referir ao desenvolvimento do processo de cuidados e abordagens de cuidados que são focados no paciente. Obviamente todo cuidado é focado no paciente, mas trata-se de fazer algo além. De fazer “com ele”, ao invés de “para ele” e, assim, proporcionar uma boa experiência nos cuidados. É em direção dessa parceria que estamos caminhando.

Existem muitas terminologias em uso: ‘cuidados centrados no paciente’, ‘cuidados centrados na pessoa e na família’, ‘engajamento do paciente’ ou ‘experiência do paciente’, mas o obje tivo é o mesmo: projetar e criar uma experiência centrada no paciente.

Como o conceito vem se difundindo?

Em 1993, o Picker Institute publicou o livro Through the patient’s eyes1. A abordagem trazida foi um um marco, uma ruptura com tudo onde realmente se propõe uma mudança no sistema de saúde, em especial nos hospitais. A nova mensagem é ver as coisas mais pelos olhos do paciente do que pelo olhar dos clínicos e funcionários. Acontece que os hospitais e muitos sistemas de saúde são amplamente projetados para os provedo- res dos cuidados e, ainda que desejem dar o melhor cuidado, não entendem de maneira profunda a experiência dos pacientes.
Atualmente, gosto da interpretação do Barral Institute, que se alinha com o que nós estamos fazendo no IHI no momen- to. Após muitas pesquisas, eles vieram com uma definição muito boa do conceito que é “a soma de todas as interações modelada pela cultura da organização, que influencia as percepções do paciente ao longo do cuidado”.
Outra referência veio do Planetree, que tem princípios maravilhosos sobre interações humanas e construção de cuidados em relação ao ambiente físico. De modo geral, organizações que têm foco internacional estão contribuindo para a evolução do conceito ao redor do mundo.

Na prática, por onde começar?

Primeiro ouvir a fundo o que importa para os pacientes. Há mecanismos co- nhecidos de inputs e feedbacks, desde pesquisas a sistemas de medição. Elogios e reclamações orientam sobre como fazer melhor para pacientes e seus fami- liares, ajudam a entendê-los e a tentar proporcionar uma boa experiência nos cuidados.

E a partir daí, qual o caminho?

Insisto na ideia de evoluir de “fazer dire- cionado ao paciente”, “fazer para o pa- ciente” e, então, “fazer com o paciente”. Eu acho que é uma boa estrutura para as pessoas pensarem onde estão e onde querem estar.
Nós, no IHI, temos uma concepção chamada “What Matters to You?” (o que importa para você), baseada na tomada de decisão compartilhada descrita no artigo Shared decision making: Pinna- cle of patient-centered care2. Os autores colocaram a seguinte provocação: além de perguntar aos pacientes “qual é o problema ou se está doendo muito”, seria importante perguntar também o que importa para eles. Nós descobrimos que, ao explorar a situação de verdade e en- tender a fundo as prioridades, valores e necessidades do paciente, a gente pode se sair melhor no sistema de saúde.

Os pacientes estão preparados para esse tipo de abordagem?

Os clínicos precisam começar a engajar os pacientes nesse nível de uma forma mais regular, e daí, envolver os pacientes na estrutura dos cuidados.
Se os pacientes e familiares entenderem que estão trabalhando com os hospitais nas estratégias para melhorar a própria experiência, eles serão mais participativos.


E o corpo clínico e demais colaboradores, estão preparados?

Acredito que é realmente uma questão de habilidade da escuta ativa e empatia. Atualmente, há grandes centros acadêmicos e pesquisadores descobrindo que as capacidades de empatia e escuta ativa gerais podem ser melhoradas continua- mente em um indivíduo. Isso é relevan- te para enfermeiros ou qualquer outra pessoa nas profissões de saúde.
Há uma organização nos Estados Unidos chamada Schwartz Center For Compas- sionate Healthcare cujo foco é ajudar profissionais de saúde a serem mais com- passivos e apoiá-los em seus desafios. Na Cleveland Clinic, há também um pro- grama que tem sido muito importante no desenvolvimento da capacidade de empatia. (Ver página 44)
O cuidado que cada um de nós quer para si é o mesmo que quer para entes queridos e pacientes. Esse é o motivo central pelo qual médicos e enfermeiros e outras profissionais de saúde escolheram suas carreiras.
São eles que trabalham junto com os pacientes para coestruturarem as mudanças que melhoram a experiência do paciente. É essa colaboração que torna os pro- cessos confiáveis dentro dos hospitais.

A abordagem mais centrada no paciente pode significar novos custos para os hospitais?

Todos os esforços de melhoria pedem um ajuste de lideranças, gerência de nível médio e médicos da linha de frente, funcionários e tempo, por exemplo, para coleta de dados e capacitação. Em alguns casos, o ambiente assistencial pode precisar de mudanças físicas. Sem dúvida, existem custos, mas com grande benefício.

Como medir os resultados?

Existem ferramentas de medição sendo desenvolvidas praticamente em todo lugar, e as mais comuns nos Estados Unidos são feitas pela MediCare.
No futuro, haverá mais resultados qualitativos e quantitativos, a partir de pesquisas, grupos focais, encontros individuais, observações em unidades, inspeções por parte dos executivos e líderes falando com pacientes e famílias dando feedback informal.
Eu diria para não se usar apenas uma ferramenta de mensuração, mas uma miríade delas, tanto qualitativas como quantitativas. De toda forma, o que é de fato extraordinário são os resultados relatados pelos pacientes.


> Vice-presidente do Institute for Healthcare Improvement (IHI);
> Enfermeira;
> Responsável pelo desenvolvimento de inúmeros projetos relacionados a qualidade e segurança do paciente.

REFERÊNCIAS
1. GERTEIS, Margaret et al. Through the Patient’s Eyes: Understanding and Promoting Patient-Cente- red Care. Jossey-Bass 1993
2. Barry MJ, Edgman-Levitan S. Shared decision making: Pinnacle of patient-centered care. N Engl J Med. 2012 Mar;366(9):780-781.