Regular, Medir e Transformar

Ezequiel García Elorrio é um dos fundadores do Instituto de Eficácia Clínica e de Saúde - IECS (Buenos Aires/Argentina). Doutor em Medicina pela Universidade de Buenos Aires (UBA), formou-se mestre em Epidemiologia na Faculdade de Saúde Pública da
Universidade de Harvard (Boston, Estados Unidos) e é Mestre em Administração de Empresas na Universidade Austral de Buenos Aires (Argentina). Sua educação foi financiada, entre outros, pela Fundação W.K. Kellogg dos Estados Unidos.
Atualmente, está trabalhando para consolidar uma pesquisa e implementação, visando melhorar as práticas e serviços de saúde na América Latina. Em outubro de 2018, esteve no Brasil a convite da Seguros Unimed para participação no 3o Seminário Internacional de Segurança do Paciente e Acreditação em Saúde, da Organização Nacional de Acreditação (ONA). Nessa entrevista, Elorrio analisa os países latino-americanos do ponto de vista da qualidade do cuidado e de como estão preparados para avançar em segurança do paciente.

Quais os principais desafios para a segurança do paciente nos países latino-americanos hoje?
Ezequiel García:
já é de comum acordo a prevenção dos efeitos adversos relacionados com os cuidados da assistência em saúde. Ainda assim, todos nós ainda estamos expostos aos problemas de segurança do paciente. E uma pergunta simples é “Por que precisa ser assim?”. Se já há evidências e intervenções possíveis para evitar tantos eventos adversos, por que ainda acontecem incidentes que poderiam ser evitados? Um artigo recente nos Estados Unidos demonstrou que 8 milhões de mortes ao redor do mundo poderiam ser evitadas com melhores processos de qualidade. há ainda as pessoas que não morrem, mas precisam conviver com o dano provocado por um evento adverso. E os problemas são os mesmos de sempre. Precisamos entender por que eles se repetem. é mais do que entender o que não estamos fazendo, mas por que não estamos fazendo?

Há um caminho para isso?

EG: Medir, regular, se comprometer e comuni- car. Claro, não há uma receita pronta que sirva para todos, cada instituição deve encontrar sua fórmula. Quando olhamos para a Europa, por exemplo, o que tem sido crucial foi estabelecer parâmetros de medição. São países que avaliam os problemas com mais objetividade e, então, podem criar planos de ação embasados na realidade. Estudos de caso baseados em evidência já acontecem há muito tempo nos
Estados Unidos. Aqui na América Latina, esses estudos não avançam, são convenientemente ignorados. é, também, preciso enxergar nos pacientes verdadeiros sócios, envolvê-los no seu próprio cuidado e muitas vezes é preciso incentivá-los a se interessar pela própria saúde, algo que acontece muito mais nos EUA do que aqui, por exemplo.

Entre os desafios, quais seriam os pontos mais urgentes para os países latino-americanos?

EG: Um ponto importante é a medida de desempenho no Sistema de Saúde. é preciso bucar uma combinação de qualidade, eficiência, cuidado e equanimidade, com um sistema que dê acesso, ou seja, é fundamental haver uma integração. é vital, ainda, encontrar mecanismos de participação social de maneira proativa, além de criar uma solução efetiva para que a qualidade de atenção seja vista como um dever, não como algo voluntário, e, por fim, alcançar compromisso profissional. essa perspectiva teria que vir desde a educação, na universidade. hoje, os estudantes de medicina não têm conhecimento do que acontece fora do meio acadêmico, não estão em contato com a realidade prática, quando falamos do tema segurança do paciente com os estudantes, eles ainda ficam surpresos. Deveria haver uma inquietação para levar os jovens médicos a promover as mudanças. hoje, o sistema está sendo operado por enfermeiros, que realmente se envolvem no dia a dia das ações. Então, é muito importante que haja essa conscientização.

A realidade financeira e de disponibilidade de recursos é diferente entre países. É possível, mesmo com as diferenças, orientar ações para resultados semelhantes?

EG: Nos países em desenvolvimento, são mais comuns as infecções, complicações em cirurgias e erros nos medicamentos. já nos países desen- volvidos isso tem mudado, porque essas questões estão sendo trabalhadas há muito tempo, então, os problemas passam a ser voltados ao diagnóstico, comunicação ou cultura de trabalho.
Claro que não é fácil simplesmente transferir um modelo de um lugar para o outro. O sistema inglês está, por exemplo, inserido em uma cultura de aproximação dos problemas. Se há algo errado, os ingleses não ignoram, nem temem a exposição, mas querem o quanto antes medir e encontrar formas de diminuir o impacto, criar estratégias para resolvê-lo. Aqui na região, culturalmente, essa é uma postura que ainda precisa ser internalizada.
Ainda estamos olhando muito para os EUA, que têm sido nos últimos 30 anos uma bússola para os países em desenvolvimento quando se fala em qualidade. o desafio atual para nós é começar a trabalhar cada vez mais com atenção primária. A América Latina, apesar das idas e voltas, cresceu economicamente nos últimos 20 anos. Isso também gerou mais demanda da população. O problema de hoje é que a assistência hospitalar é cara, temos que encontrar um nível de atenção que tenha sentido e seja acessível. há ainda muito desperdício, falta de valorização do que fazemos e falta de importância aos indicadores. Um caminho é o desenvolvimento da Atenção Primária. já vemos um movimento. E é importante frisar que este não é um tema ideológico ou de oportunidade, mas é considerar o avanço das doenças crônicas e processo envolvido na progressão delas. Se usamos mal os recursos da saúde, não vamos atender bem a essas pessoas nem as tratar da forma adequada e sustentável.

Como o senhor avalia a situação brasileira em comparação com os demais países da américa latina?

EG: México e Chile trouxeram planos nacionais que se mantiveram mesmo com a alternância de partidos políticos no poder. Na Argentina isso não ocorreu. é importante pensar em soluções
permanentes. A Argentina, por exemplo, foi uma das pioneiras nos projetos de acreditação, mas não avançou tanto como o brasil, que começou muito mais tarde, mas teve um avanço imenso nesse sentido.
No restante da América Latina a situação é ainda mais grave do que no brasil, porque não tem muita concorrência dentro de cada país. No brasil, quando você pensa em São Paulo, concentram-se em uma mesma cidade vários hospitais de muita qualidade da América Latina. Eles têm um alto nível de competição entre si no setor privado e trabalham mais em processos de segurança, qualidade e acreditação, o que estimula e impulsiona mais mudanças do que nos demais países da região.

A cooperação entre nações pode ser um fator diferencial?

EG: hoje os países têm muitas propostas de cooperação, mas ainda há uma questão de como se fazer isso de forma efetiva, e com certeza pode melhorar. A cooperação pode ser feita de muitas formas, comparando-se os modelos e os resultados obtidos em cada país, por meio da troca de informações e tecnologia, com intercâmbio de talentos e até compartilhamento de programas.

Sobre sua participação no seminário Internacional de Segurança do Paciente e acreditação em saúde da Ona, qual mensagem gostaria de reforçar?

EG: é importante estar ciente de que a segurança do paciente é um imperativo moral, a saúde é cada vez mais complexa, precisamos estar preparados para oferecermos alto nível de qualidade e ao mesmo tempo sermos mais eficientes nos recursos. A ideia é trabalharmos para que esta mensagem chegue aos verdadeiros tomadores de decisões. Eles querem que as coisas saiam bem e é preciso pensar em como fazer essa informação chegar da melhor forma possível até eles. A maior questão em todas as áreas é como diminuir a brecha entre o que se sabe que é possível fazer e o que se faz. há uma nova geração de médicos e gestores chegando, querendo mudanças e acreditando que é preciso transformar o modo de enxergar as coisas, realmente preocupados com o bem-estar, segurança e qualidade da assistência. Quem sabe esteja nessa nova geração essa esperada mudança.